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Figura

Incapaz de lidar directamente com os dados brutos da realidade, que o avassalavam traumaticamente, o homem sonhou deuses para o sonharem. Sonhou-se o sonho de um deus. Para atenuar a sua própria realidade bruta, achou-se figura onírica, feita de matéria inefável, incorrupta. O homem deixava de ser um animal nu atirado para a natureza; passou a ver-se a si próprio como figura, imagem, representação. Figura do seu próprio poder de retórica.
O processo de figuração é-nos inerente. O homem já não pode ser outra coisa senão o sonho que faz de si mesmo, personagem da sua própria trama onírica auto-contemplativa.
Este sonho às vezes redunda em pesadelo. Mas nunca há um verdadeiro despertar. O despertar seria equivalente a uma aniquilação, uma entrega total aos factores traumáticos destrutivos de que o homem laboriosamente se afasta.
O humano só pode persistir sonhando-se e continuando a mover-se nesse enredo que tece interminavelmente, que é constitutivo do seu próprio pensar. Este pensar figurativo protege-nos do esmagamento, como a membrana protege o citoplasma da célula do assalto do exterior ou da diluição.
Somos humanamente o resultado do nosso pensar o mundo – e do nosso pensarmo-nos. O que tem mais a ver com o sono, que nos protege, do que com a lucidez que nos faria desintegrar no tumulto molecular envolvente.

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Larvas

Originalmente, as palavras e as imagens deviam o seu poder significante à experiência real concreta e corpórea de onde brotavam e para que remetiam, num reenvio fecundo cheio de possibilidades. Essa, a experiência sensorial física, era a sua fonte de inspiração e de renovação sempre activa, sempre viva.
As facilidades tecnológicas do mundo moderno trouxeram um incremento espantoso das palavras e das imagens. Já não há factos nem coisas reais; há sobretudo a representação verbal ou figurada deles, ao ponto de a nossa própria existência enquanto humanos ser cada vez mais um eco, uma cópia virtual.
Somos cada vez mais simulacros de pessoas, existimos virtualmente em casulos tão perfeitos que já não queremos sair deles para a luz forte do Sol ou para a escuridão profunda da Noite. No entanto, foi o Sol e a Noite que criaram mitologias, artes, ciências, que estruturaram a nossa arquitectura mental. Sem essas experiências, sem palavras e imagens encarnadas e vividas nelas, somos apenas larvas cibernéticas – a enferrujar dentro do casulo.

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O duo mãe-filho


A condição vivípara que é a nossa, a gestação de crias dentro do corpo materno, é um facto zoológico que marca toda a vida pessoal, cultural, histórica, espiritual.
Temos tendência para esquecer que crescemos durante meses dentro do corpo da mãe, carnalmente fundidos com ela. Quando adultos, sabemo-lo abstractamente, mas o nosso Inconsciente corporal e psíquico mantém actualizadas as impressões dessa matriz carnal, sanguínea e psicológica. Emergimos do continente materno, e vida fora persiste uma atracção e um terror regressivos que nos induzem um retorno ao lugar onde já estivemos e que nos é estranhamente familiar, inquietantemente fascinante.
As mitologias primitivas, baseadas na Deusa-Mãe, restauram uma protecção uterina estendida a toda a paisagem natural e fecunda (a Natureza, como a Terra, é Mãe). Uma tendência anti-regressiva, anti-maternal, anti-feminina no sentido estrito, promove religiões patriarcais que destronam furiosamente a Deusa, combate o apelo regressivo onde se dilui a identidade, e impõe uma atitude máscula blindada que se supõe à prova de tentações regressivas.
Na passagem do matriarcado para o patriarcado, o Cristianismo teve, no mundo ocidental, um papel decisivo de consolidação. Cristo insiste em falar do Pai. No entanto, o matriarcado e o materno pulsam latentemente mesmo aí. Duas das mais frequentes representações de Cristo o figuram com a Mãe: quando Menino, no colo da Mãe, e quando morto, no colo da Mãe.
Sempre foi assim desde a noite dos tempos. O princípio e o fim equivalentes e coincidentes. O mesmo colo recorrente e intemporal. Do corpo da Mãe emerge o filho; ao corpo da Mãe-Terra ele é remetido, para renascer como as sementes.
O mito cristão, aqui como noutros aspectos, apenas retoma e aplica à sua maneira antiquíssimas concepções. Pregado na Cruz, o filho imola-se no corpo originário da Mãe, porto de origem e porto de regresso definitivo.
Impossível desmentir o que há de materno, envolvente e totalizante no símbolo da Cruz. Se todos nos imolamos simbolicamente na imagem do corpo materno, Cristo imola-se literalmente, para nesse sacrifício simbolizar uma possibilidade constitutiva de todos os seres humanos.
Cristologicamente, a Cruz representa também o Verbo, que tende para o abstracto mas provém do sensorial concreto, tal como a árvore estende os ramos para o céu mas tem raízes debaixo da terra.
Embora interpele constantemente o Pai, vemos que Cristo está tão imbuído do materno, do princípio ao fim da sua história, que se diz que Maria o concebeu sem intervenção do marido, o carpinteiro José. Que melhor ilustração do duo mãe-filho auto-suficiente, sem necessidade nem interferência do paterno?
Mesmo no mito que veio consolidar o patriarcado face ao matriarcado, a Lei do Pai face à divindade materna primitiva, fulgura, disfarçada, a relação primordial e final com o materno. Onde está o Pai? Podemos deduzir, conjecturar, que está vigilante, abstractamente omnipresente. Mas a Mãe, essa, está aqui mesmo, ao nosso lado, aos pés da Cruz, olhando o filho agonizante, ou tendo-o novamente nos braços como um bebé.
Esta concepção remete para duos materno-filiais muito mais antigos, em contextos religiosos onde o materno não estava tão escamoteado, como é o caso da deusa egípcia Ísis, a mais Velha entre as Velhas, velando a morte e a ressurreição do seu filho Hórus, ou, ainda mais para trás no tempo, a babilónica Istar, Luz do Mundo, Mãe das Divindades, e o seu filho-amante Tamuz, morto e ressuscitado.

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A cadeia hereditária


Os filhos extinguem e ao mesmo tempo continuam os seus antepassados. Originários das entranhas dos pais, marcam com a sua nascença o suceder geracional, acrescentam mais um elo à cadeia das gerações que, com os seus mitos e os seus símbolos, entrelaça e vida e a morte.
Há quem queira escapar à tirania da lei da sucessão que procura amarrar-nos às suas elucubrações e criações, às suas germinações e metamorfoses. Existe esta necessidade de restaurar a cadeia hereditária, que se perpetua a si mesma através de transformações celulares e orgânicas, estímulos seminais, indivíduos que, dominados por uma febre germinativa, geram outros indivíduos através de um plasma entranhado dentro deles, embriões e fetos prematuros que crescem para transmitir o eterno plasma à geração seguinte.
Sobrevivendo à morte das gerações há a imortalidade do plasma germinal que engendra essas mesmas gerações. Muitos dos sonhos dos homens devem-se a esse plasma e não às contingências de uma vida particular; sonha-se com o tempo absoluto desse protoplasma e não com o tempo de uma vida humana.
Estamos dentro da morte como bebés no ventre da mãe. Dentro dos nossos mortos jazemos em embrião, pré-programados para a vida. Dormimos o sono das origens no núcleo orgânico daqueles que viveram há muito tempo e já morreram.
O plasma germinal, que nos forma e informa, sobrevive às gerações que o transportam; os que vão morrer transferem-no à geração seguinte. Uma longa cadeia de mortos teve de se formar para sermos gerados. Os mortos, todos os nossos mortos, transportaram o código genético no seu âmago celular, como viajantes pré-históricos que levassem consigo o fogo, que o defenderam do gelo e do vento, da neve e da chuva, que protegeram a chama para a acender mais adiante, perpetuando o domínio desse fogo sagrado, desse artefacto intocável da civilização.
Esta cadeia hereditária quer prender-nos à sua inexorabilidade, às suas leis de vida e morte, nascimentos e óbitos, gestações e gerações sucessivas, de berço em berço e de cova em cova. Ela quer captar-nos, absorver-nos, subjugar-nos ao seu império, aos seus sortilégios procriativos e fatais. Esta cadeia forma os indivíduos e, formando-os, prende-os a si mesma, redu-los a veículos desse plasma germinal imortal que dá origem a mais indivíduos para se alojar neles e ser transportado à geração seguinte, e assim por diante, numa repetição constante e incansável. Nós somos os veículos portadores desse plasma persistente, sustentando-se geração após geração, gestação após gestação, nesses corpos férteis embutidos uns nos outros como sarcófagos egípcios ou bonecas russas.
A Mãe-Terra, fecunda e macabra, é fonte matricial e sepultura fechada. Na periferia das primeiras cidades do mundo, os campos cultivados que forneciam alimento à população ficavam lado a lado com os cemitérios. Debaixo da terra estavam as sementes agrícolas e os mortos, e as divindades que presidiam à agricultura também regiam os mortos.
Nascidos para a morte, reencontramos na morte as condições pré-natais que foram as nossas no sono embrionário, sono das origens, e quando mortos fundimo-nos na Natureza tal como o feto no corpo materno.
O faraó, o morto real, é metido em sarcófagos embutidos uns nos outros, ventres embutidos uns nos outros como bonecas russas, essas bonecas tão maternais e tão sepulcrais. O sarcófago, grávido do seu morto; as mães, grávidas de novos mortos. Toda a arte funerária é maternal; todo o cântico fúnebre é uma canção de embalar. Os Egípcios antigos sabiam-no, o Homem de Neanderthal sabia-o, e todos nós sabemo-lo sem o sabermos. O que é o corpo da mãe senão o túmulo de onde provimos? Não só é a terra originária como também o túmulo originário; o corpo da mulher fértil é o país dos mortos, o continente predilecto da morte. Dentro do corpo da mãe, na Mãe-Terra original, está-se literalmente soterrado, num estado intermédio entre a vida e a morte, num sono originário que deve tanto à vida como à não-vida.
Envolvem-se as múmias em faixas tal como se envolvem bebés recém-nascidos em faixas: não poderia haver sinal mais eloquente de que nascimento e morte se equivalem. O recém-nascido e o morto são o duplo um do outro. O recém-nascido é o morto por excelência. O feto metido no útero da mãe, corpo embutido noutro corpo, é o morto prototípico.
As mães são dadoras de vida, geradoras de vida, criadoras no sentido mais substancial e primitivo da palavra, e são também, por isso mesmo, criadoras de morte. O seu corpo é fecundo e sepulcral.
As mães cavam um túmulo no seu próprio corpo e procedem aí a uma metamorfose, desencadeiam um ciclo de vida e morte no seu próprio corpo, obreiras do destino e da morte, tecelãs laboriosas e fatais como a aranha.

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O carro vermelho


Tinham 12, 11 e 10 anos. Contaram mais ou menos a mesma história. Costumavam apanhar juntas o autocarro para a escola. Parou um carro vermelho, saiu um homem que as enfiou lá dentro e arrancou. Ninguém terá visto, ou quem viu não percebeu a situação.
O raptor levou-as para uma quinta abandonada fora da cidade e, numa casa velha, amarrou as três coleguinhas com cordas penduradas do tecto e violou cada uma delas, sucessivamente.
Trazidas numa ambulância à presença do perito forense, a mais nova, a de 10 anos, foi a que pôs mais emoção e ênfase nas suas declarações. Disse ao entrevistador:
- Ele começou na mais velha, depois na do meio e depois veio para mim.
- E o que é que ele te fez? – perguntou o perito.
- Ele fez sexo comigo.
- Mas o que é isso de fazer sexo?
A menina teve um breve silêncio dramático, o perito não ouviria as mais aparatosas sirenes de ambulância naquele instante, na expectativa da sua resposta, e ela respondeu:
- O senhor com a sua idade não sabe o que é?
Nenhuma das três foi suficientemente convincente e revelaram-se incapazes de fornecer pormenores que evitassem o excesso de generalidades. Apurou-se que faltaram à escola para irem passear e que depois combinaram uma desculpa que sabiam que alarmaria os adultos ao ponto de ocultar, quanto mais não fosse por algum tempo, a verdade. Nada como uma mentira espectacular para esconder uma verdade trivial.
A propósito: a cor vermelha do carro não é, neste contexto, um pormenor desprezável. No entanto, perante o alarme dos pais das crianças, e a sua ira final para com as pequenas mentirosas, o perito absteve-se de lhes explicar o seu simbolismo.

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Poemas traduzidos do chinês 11

O futuro é escasso. Da minha

Própria vida sou espectador.

Os dias passados estilhaçam-se

Como um esvoaçar de pétalas num jardim.

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Poemas traduzidos do chinês 10

Ainda longos os dias, subi à montanha

Para colher flores raras. Ao voltar,

Neblinas frias apagam as cores do vale.

O ar congela tons de amarelo nos ramos.

A inesperada beleza do Outono espalha-se.

Trago nos bolsos pétalas murchas.

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Sono-vigília 1

(Os Objectos Familiares, Magritte, 1928)

Todas as manhãs arrancamo-nos do sono e atiramo-nos, hesitantes, para a realidade vigil. Se o sono é um retomar das condições pré-natais, o acordar, tal como o nascimento, reproduz por instantes a neotenia com que vimos ao mundo, a imaturidade e impreparação com que abandonámos a primeira posição fetal.

Um estilhaçar aparatoso do mecanismo do sono, ou um deslizar para fora do casulo de sonhos, um arremessar-se bípede e vertical, ainda que estremunhado, para mais um episódio vigilante, eis a experiência de todos os dias, o recomeço quotidiano.

O sono e a vigília chegam a parecer compartimentados separados de modo estanque. Para passar da vigília ao sono é preciso algum cansaço ou estar distraído – ou pelo menos dispormo-nos a sermos passivos, abandonarmo-nos à vaga latente que nos transportará, como uma gôndola, pelo lodo escuro de uma Veneza imaginária. Enquanto que para sair do sono e aceder à vigília é necessária uma ruptura, uma certa disciplina auto-imposta.

Dois compartimentos estanques, o sono e a vigília, cujas paredes e fronteiras vigiamos atentamente. Mas por vezes transformam-se em dois pólos de um continuum movediço, uma gradação que não revela as suas etapas intermédias. Não há um ponto separado dos outros em que possamos dizer: “Começou agora o estado de sono.” Nem podemos dizer com toda a certeza: “Agora acabou a vigília.”

Combatemo-nos a nós mesmos, fugimos de nós e corremos para nós, da vigília para o sono e do sono para a vigília, as duas metades que se repelem e ao mesmo tempo se fundem e confundem. Debatemo-nos numa insónia, a desejar resvalar para o sono e diluir a vigilância rigorosa no sono, e acontece sonhar que estamos acordados a tentar dormir. O sono, hábil trapaceiro, mascara-se de vigília para nos surpreender, para não o rechaçarmos. A hiper-vigilância é tão aguda que continua em sonhos, tornada inoperante e indefesa apesar da ilusão de persistir.

Entramos nos domínios do sono sem nos apercebermos, sem detectarmos uma fronteira, um limite diferenciador. Quando preparamos o despertador para tocar a uma determinada hora, estamos a arranjar uma armadilha de caçador contra o sono, contra essa metade de nós que avança e em breve vai tomar o controlo. Antes que ela chegue, prevenimo-nos, premeditamos o seu assassinato, programamos a sua interrupção. Mas também o sono tem engenho de caçador: faz-nos sonhar que estamos acordados e a preparar o despertador, para assim continuarmos a dormir julgando que este vai tocar e acordar-nos. É relativamente frequente o despertador tocar e o sonhador sonhar que está a acordar e a levantar-se, a desligar o despertador, a começar mais um dia vigil. O despertador continua a tocar realmente, perplexo, e o sonhador fabrica repetidamente sonhos em que está a acordar e a desligá-lo, até que a armadilha onírica falha e se desvanece – e está acordado, consciente de o estar, reunidas as forças de caçador que se endireita na trincheira que cavou no fundo da floresta, onde espera o animal selvagem que há-de voltar e que prepara também o seu instinto predatório.

Caçador e presa simultâneos, intermutáveis, persistimos nesta infindável alternância hipno-vigil, estudando-nos nesses pólos mutuamente diferenciados e confundidos, num ritual centrado em si mesmo, num jogo que eternamente se examina, se destrói e se reconstrói.

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Corpo enigmático 1

Somos o sedimento deixado em nós pelos lutos, pelos remorsos, pelas recordações, projectos falhados, sucessos e insucessos, tudo isso que deixa marcas e opera metamorfoses. Somos um palimpsesto vivo onde alfabetos e signos perdidos gravaram narrativas por descobrir.

Há povos onde as pessoas tatuam ritualmente no corpo as imagens e os símbolos da sua mitologia, condensando aí, como num tratado, o essencial da sua cultura. O seu corpo transforma-se numa epifania. O mesmo se passa connosco. A nossa cultura, a nossa história, os eventos da nossa vida, os sonhos e as palavras, fazem-se-nos carne.

Na carne e no corpo trazemos gravados, esculpidos, redigidos numa linguagem hieroglífica, aquilo que só um outro Champollion poderia decifrar.

Tornamo-nos uma peça de museu, obra exposta na vitrina para o nosso olhar perplexo e narcisista, mumificados perante nós próprios com a mesma pose hierática de um faraó milenar.

A linguagem verbal, abstracta, deriva desse palimpsesto hieroglífico corporal. Emerge daí como de uma matriz. A linguagem verbal é a manifestação maior do corpo enigmático e do enigma corporal. As palavras visam significar e re-significar o corpo que as originou. As palavras, que são primordialmente acontecimentos corporais, formulam uma e outra vez enigmas sobre estes e sobre o falante; propõem soluções nunca satisfatórias, sempre intrigantes e instigadoras de novos enigmas.

O corpo é criador e criatura, escriba e tábua de argila, eterno intérprete das suas própria elocubrações, charadas e enigmas. Como Édipo, decifrador dos enigmas da Esfinge, somos levados a enfrentar o maior enigma, que é o nosso próprio, das nossas origens e percurso, desafio a que tentamos resistir enquanto podemos mas para onde nos precipitamos inexoravelmente, até à solução libertadora, até à revelação final onde tudo estará consumado

O desenrolar de uma vida é essa resistência à decifração do seu próprio enigma.

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Autofagia

Os humanos são estranhos uns para os outros e, no entanto, familiares. Algo que estava latente, dentro, manifesta-se agora como coisa estranha vinda de fora. Começam por não se reconhecer nesses sinais ou na diversidade com que se defrontam, e no entanto isso tem ecos dentro deles que promovem uma integração, uma digestão nem sempre fácil.

Assim como a digestão transforma o alimento que pode ser absorvido e tornado substância nossa, aqui trata-se de digerir algo que já é nosso, já faz parte da nossa substância mas é como se não fizesse. O conhecimento é canibal e o auto-conhecimento é auto-fágico.

Absorvemos o que é nosso para o tornar nosso. Tornamo-nos nisso que já somos, que parece estranho mas é familiar, que nos parece alheio e todavia nos é próprio.

Há uma curiosidade natural e uma resistência ao exame, à análise, ao conhecimento em geral. E há uma resistência ainda maior ao momento auto dessas actividades: auto-exame, auto-análise, autoconhecimento.

Na putrefacção, o estômago do cadáver auto-digere-se. O autoconhecimento é ainda um trabalho da morte. Conhecemo-nos e com isso decompomo-nos; examinamo-nos e com isso observamos a nossa própria putrefacção. O autoconhecimento é autópsia (de autopsía, “ver com os próprios olhos”, em grego). Autópsia in vivo.

O conhecimento e o autoconhecimento são, assim, subsidiários da morte, auxiliares desse processo biológico, físico-químico e metafísico que é a morte. O conhecimento, e a decomposição autopsiada que ele promove, colabora (co-labora) no labor da morte, que o instiga e estimula para os seus fins – literalmente, para o fim.

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