Num mundo respeitador dos símbolos que o estruturavam, a morte era um acontecimento integrado, portador de significado. Agora, des-significada, a morte hospitalizada, clínica e asséptica retira o corpo moribundo do todo de que ele fazia parte, subtrai-o às manipulações simbólicas impondo-lhe manipulações técnico-sanitárias que, com isso, escancaram ainda mais o horror do cadáver e da decomposição.

O móbil do progresso, que era anular ou diminuir o horror da morte, agravou o problema que se propunha resolver.

A violência fundadora da cultura humana residia na morte precoce, nas devastações da Natureza, na escassez da caça ou da colheita, nos ataques das feras, na noite sem Lua, sem estrelas e sem o fogo, na nudez dos primeiros homens desmunidos e desarmados – em todas as formas informes do desconhecido.

Esta violência originária e original inspirou os mitos e os deuses arcaicos.

A violência dos humanos residia principalmente no imaginário que tentava integrar, e influenciar, os dados brutais da Natureza e da realidade material do mundo. Esse imaginário violentado e violento engendrou guerras, conquistas, vinganças, saques, chacinas, a ambição não reprimida ainda por normas universais do que é política e socialmente recomendável.

A normalização colectiva é uma violência nova que combate incansavelmente essa violência primordial e genética das origens. Para nos mantermos civilizados, colaborantes e beneficiários do mundo seguro actual, imagine-se a dimensão da violência necessária para reprimir aquela violência pulsional básica.

Desse duelo mutuamente neutralizador resultam sintomas ou sinais: os modos de fuga ou desafio à normalização colectiva que, atenuados, distorcidos, disfarçados, escaparam à completa sufocação. São, por exemplo, os actos de alguns criminosos, ou as criações de alguns loucos e de alguns artistas, essas formas onde ainda podemos surpreender vestígios da antiga violência fracturante e reestruturante. Na medida em que desafiam o consenso normalizado, o criminoso, o louco e o artista são classificados como ilegais, doentes ou tolhidos na esfera da fantasia artística socializada.

Receamos as mudanças catastróficas ambientais (erupções vulcânicas, choques de meteoros, movimentos de placas tectónicas, tempestades), mas esquecemos que são esses movimentos, para nós gigantescos, que fazem e refazem o mundo. Catástrofes como essas levaram à extinção de selvas e criaram savanas onde símios puderam evoluir para seres humanos.

Somos o resultado de cataclismos geológicos e climáticos, de ciclos de glaciações, degelos e extinções em massa. Somos filhos da catástrofe, gerados catastroficamente, somos o resultado provisório de apocalipses microscópicos e macroscópicos. A sensação de permanência é uma ilusão necessária, um intervalo de tempo calmo confundido com a eternidade.

Na etimologia da palavra catástrofe está “mudança de sentido, desenlace, solução”. Suprimimos as mudanças catastróficas da esfera das nossas vidas, recusamos os sentidos novos que essas mudanças apontam, e assim, sem desenlace do marasmo, sem solução do impasse, decorrem as nossas existências rotineiras, estéreis – embaladas na crença da segurança.

A desvitalização da violência fundadora faz perder a substância pulsional activa dos humanos. Gera o vazio existencial em que os indivíduos soçobram, e que as sociedades disfarçam mal com os seus artifícios superficiais.

Quisemos suprimir a violência, nosso património essencial, legado genético fundamental. Estamos a tornar-nos formas vazias, figuras virtuais sem substância que se movem num simulacro do mundo.

Há pessoas que não se deixam transformar pelos acontecimentos: aniversários, filhos, trabalho, relações, mortes, lutos, casamentos, separações. Tentam atravessar incólumes todas essas experiências, como se estas não as devessem transformar.

Como na Natureza, também entre nós a mudança catastrófica encerra possibilidades regenerativas, põe em marcha uma nova linha de desenvolvimento. Mas quantas vezes as pessoas recusam os sentidos novos que lhes são abertos brutalmente. E quantas vezes essa recusa se exprime no sofrimento mental e físico, que eterniza a condição larvar, usando a plasticidade do corpo e do sonho, a linguagem cifrada do desejo e do conflito. Surpreendemos aí os vestígios de metamorfoses que ficaram por fazer ou que estão iminentes.

Mudanças, crises, evoluções, agem sobre nós como o fogo consolida a forma do barro.