Arquivo

Entrevistas

  Esta é a embaraçosa chegada à maturidade de Vergílio, o protagonista socialmente incapaz do romance “A Vida Verdadeira”. Entre a vida verdadeira e a escrita, Vasco Luís Curado, o autor, prefere a escrita. Quer ser Homero e não Ulisses: “Alguém tem de fazer este trabalho”.

Vasco Luís Curado, psicólogo, já tinha publicado contos, e, há nove anos, um pequeno romance. Foi finalista do prémio Leya, recomendado para publicação. Mas o romance que agora sai na Dom Quixote, “A Vida Verdadeira”, era outro que estava na gaveta e que avança primeiro do que aquele que foi finalista. Há, portanto, outro livro, já terminado, “que poderá aparecer um dia destes”.

Aos 38 anos, é quase um desconhecido. Uma pesquisa com o seu nome no Google pode não dar quaisquer resultados. O autor cultiva esse anonimato: “É uma arte que nem todos dominam [risos]. Sou tendencialmente discreto. Já fiz mais esforço. No passado fazia mais, era tímido. Uma pessoa vence a sua timidez quando descobre que os outros têm mais o que fazer do que estar sempre a avaliar.”

Vasco Luís Curado é tímido como Vergílio, o protagonista de “A Vida Verdadeira”. À primeira vista, este é um romance sobre um homem que vai deixar a casa da sua infância, a última propriedade que resiste ao avançar impiedoso de um urbanismo de prédios altos e marquises reluzentes. Mas, num segundo olhar, este romance já não é sobre essa casa, mas, nas palavras do autor, sobre Vergílio, “um jovem adulto, inexperiente, que se sente incompatibilizado com a vida comum. Teve uma mãe sobre-protectora e um pai com uma personalidade fantasista e omnipotente que não o prepararam para a vida adulta. Tem tendência para se fechar num casulo de memórias e recordações de infância. Tem dificuldade em deixar o espaço da infância.”

Vergílio está numa fase de transição para a vida adulta. É o momento de sair da casa das memórias, e de construir uma outra, “feita de palavras”, explica Vasco Luís Curado. Vai assumir a escrita enquanto destino, e, ao “assumir-se como escritor, vai habitar outro casulo protector”. A vida verdadeira é a escrita?

As palavras de Herberto Hélder (que o autor desconhecia) poderiam ter sido ditas por Vergílio, assim: “Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo, nem dá como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.”

A vida ou a escrita

É fácil culpar a mãe e a irmã, mulheres da vida de Vergílio, pela sua total incapacidade de “afrontar a realidade convencional, comum, quotidiana”. Primeiro a mãe, super-protectora, que não o deixa sair. A escola vai ser o grande ponto de ruptura: “Durante a infância, sente-se dividido entre a lealdade à mãe, ao seu mundo enclausurado, e o apelo da vida social, a começar pela escola. A escola é a grande instituição que vem tirar as crianças às suas mães”. Isto tem consequências sérias para Vergílio: vai viver sempre dividido, “culpabilizado, porque partir para o exterior é trair a mãe”. Mas é o próprio Vergílio que se agarra ao passado “para justificar a sua inacção, a sua inabilidade, a sua incompetência social”.

A relação com a irmã, Irene, “parece mais doentia”, quase incestuosa. No limite, explica o escritor, “o incesto puro e duro é casar e ter filhos e copular com as irmãs, com a mãe, com as filhas, é não ir para o exterior e não fazer trocas com o exterior”. Este é um incesto metafórico, portanto: “Como ele está incompatibilizado com a vida social, quotidiana, real, agarra-se às figuras marcantes da infância”. Irene tem a iniciativa de romper com o irmão. “Ela amadurece mais depressa e exorta-o a amadurecer. É assim que vejo este incesto simbólico entre eles. A dificuldade dele em crescer, em amadurecer, em partir para a vida real. É uma zona de conforto que ele não quer deixar. É a irmã que lhe garante a continuidade nessa redoma”.

Além da mãe e da irmã, Vergílio agarra-se às memórias da família: “Inscreve-se na cadeia de antepassados para se ligar à própria história da humanidade que é outro casulo que ele constrói à sua volta, acompanhado pelos heróis míticos do passado, como Ulisses”. Sim, mas Ulisses era um guerreiro aventureiro, e Vergílio não sai de casa: “Ele é um Ulisses doméstico [risos], entre a cama onde dorme, a cozinha, e o portão da quinta onde mora, passa por mil aventuras, mil errâncias. Grandes odisseias podem acontecer nesse percurso”. O imaginário de Vergílio está ligado ao seu pai, ao avô e ao bisavô, “antepassados masculinos que ele vê como uma corrida de estafetas, em que uma geração passa o seu testemunho à geração seguinte”. O autor continua o seu cepticismo quanto às reais possibilidades de Vergílio passar o testemunho: “Não o imagino casado, passando o testemunho à geração seguinte, pelo menos não da maneira convencional, tendo filhos, sendo o exemplo moral para o filho, como o pai foi para ele. Nesta transição para o mundo exterior à família, duvido muito das capacidades de sobrevivência dele.”

Mas o legado de Vergílio (como o de Vasco Luís Curado, afinal) poderá ser, ao participar nessa corrida de estafetas, passar o testemunho através da escrita. A vida verdadeira também pode ser um texto: “Seduz-me pensar que a nossa vida verdadeira não é esta que assumimos publicamente, certificada, com bilhete de identidade, mas sim uma ficção que todos nós construímos. Essa lenda que fazemos de nós próprios e dos outros. Temos tendência para ver os outros como figuras lendárias, os nossos pais, os nossos avós; construímos narrativas, episódios da mitologia familiar.”

Por isso, sair de casa para a realidade comum é difícil. No final, Vergílio sai da casa que acabou de vender, literalmente sai, e vai para o centro da cidade. Mas essa nova vida será tão difícil como caçar o leão que o Tio Horácio, que combateu na guerra colonial em Angola, lhe contou ser o rito de transição entre a infância e a vida adulta para algumas tribos bantu. Vergílio ainda vai ter de aprender a caçar leões: “Simbolicamente, esta transição na sua vida é ele a sair para o mato para caçar o seu leão. A casa é a infância, e o que o espera lá fora é uma experiência decisiva para alcançar outro modo de vida mais independente. O leão continua lá fora para ser caçado por ele.”

Ulisses de Nambuangongo

O Tio Horácio é uma das personagens mais marcantes de “A Vida Verdadeira”. Apesar de sabermos aquilo por que passou na guerra colonial em África, o autor nunca tem uma leitura crítica ou política desses acontecimentos. Parece vir a calhar esta conversa, dias depois de António Barreto lembrar os combatentes no 10 de Junho, dias depois das comemorações do 25º aniversário da adesão de Portugal à CEE.

Ao contrário do narrador, Vasco Luís Curado (que ainda hoje, como psicólogo, trabalha na Liga dos Combatentes) tem uma opinião. Foi uma escolha intencional, diz, não fazer juízos de valor sobre a guerra em África, no romance: “Estou mais interessado na experiência dos próprios combatentes do que nas leituras políticas que se possam fazer da guerra colonial. Procuro situar-me do ponto de vista do combatente, um homem, em geral, com pouca instrução e normalmente apolítico. Ouvi muitos combatentes como psicólogo, ouvi muitas histórias, contactei com muitos veteranos.”

Curado admite que, 35 anos depois do fim da guerra, “é altura de resgatar essas histórias”. À guerra colonial e à descolonização Curado pretende voltar em futuros livros. É importante para compreender o Portugal de hoje: “Esquecemos que, há bem pouco tempo, homens com quem nos cruzamos todos os dias na rua combateram em África, cometeram massacres e violações, e também tiveram actos de grande decência, e de grande heroísmo. Recalcámos isso muito depressa. Aderimos rapidamente ao projecto europeu, encerrámos o capítulo imperial. Por isso não me surpreende que haja pessoas por aí a viver na sombra, antigos combatentes. Parece que o país não os quer ouvir, o país europeu.”

Talvez este seja o tempo de contar tudo isso, de falar dos tios Horácios das famílias portuguesas. Assim, a escrita é uma espécie de missão. Sim, ainda está a aprender a caçar leões, mas a sua caçada “são os livros”: “Os livros que me expõem em entrevistas, me expõem ao exterior da minha redoma. A minha caçada do leão talvez sejam esses livros escritos e os livros por escrever”. Conta como Cervantes põe fim ao Dom Quixote: “Dom Quixote nasceu para viver e eu para escrever, disse Cervantes”.

Vasco Luís Curado quer ser Homero e não Ulisses. “Eu serei aquele que escreve, alguém tem de fazer este trabalho. Há por aí novos Ulisses que combateram em Nambuangongo e que precisam dos seus Homeros.”